Os acidentes com motocicletas seguem pressionando a rede pública de saúde na Bahia e gerando impactos que vão além das emergências hospitalares. Somente em 2025, as internações relacionadas a acidentes de moto custaram cerca de R$ 148,6 milhões ao sistema público de saúde baiano, segundo levantamento da Secretaria da Saúde do Estado (Sesab). À medida que o movimento Maio Amarelo chega ao fim, os dados reforçam a necessidade de ampliar a reflexão sobre segurança no trânsito, prevenção de acidentes e os impactos permanentes que esses traumas provocam não apenas nas vítimas, mas também nas famílias e no sistema público de saúde.
No Hospital Ortopédico do Estado da Bahia (HOEB), unidade administrada pelo Einstein Hospital Israelita e referência estadual em ortopedia e trauma, os motociclistas representam uma parcela significativa dos atendimentos de urgência regulados diariamente pela unidade. Atualmente, o hospital registra cerca de 450 atendimentos regulados de urgência a cada 30 dias. Desse total, aproximadamente 60% estão relacionados a acidentes de trânsito e, dentro desse grupo, cerca de 40% envolvem motociclistas.
A maioria das ocorrências acontece no fim da tarde, início da noite e aos finais de semana, tendo como principais causas colisões com automóveis e quedas da própria motocicleta. O perfil predominante das vítimas é formado por homens jovens, entre 18 e 40 anos, muitos deles utilizando a motocicleta como ferramenta de trabalho, como entregadores por aplicativo, motoboys e mototaxistas. Além dos impactos físicos, os acidentes frequentemente afastam esses trabalhadores das atividades profissionais por longos períodos, comprometendo a renda familiar e provocando consequências emocionais e sociais importantes.
Entre os pacientes atendidos na unidade está um entregador de 37 anos, morador de Salvador, que já sofreu três acidentes de motocicleta ao longo dos últimos anos. Nas ocorrências anteriores, fraturou a clavícula e a tíbia. Agora, após cair da própria moto no último dia 3 de maio, aguarda a realização da segunda cirurgia para tratar uma fratura no tornozelo. Pai de três filhos e com a esposa grávida do quarto bebê, ele relata que a família enfrenta dificuldades financeiras desde o afastamento do trabalho. “A moto era minha ferramenta de sustento. Hoje estou sem poder trabalhar, dependendo da ajuda de amigos e parentes para manter as contas e sustentar meus filhos. A gente nunca acha que vai acontecer de novo, mas a realidade muda de uma hora para outra”, conta.
Entre as principais lesões atendidas pela unidade estão fraturas expostas de tíbia e fíbula, fraturas de fêmur, traumas complexos em membros superiores, além de casos graves envolvendo pelve, coluna e amputações traumáticas. Muitos pacientes precisam passar por múltiplas cirurgias e enfrentar longos períodos de reabilitação. O custo médio de internação é estimado em R$ 10,6 mil por paciente, podendo o tempo de permanência hospitalar chegar a 15 dias nos casos mais graves que necessitam de UTI.
Para Roger Alencar, diretor do Hospital Ortopédico, o cenário exige um olhar mais amplo sobre prevenção, segurança e condições de trabalho. “Estamos falando de jovens em plena fase produtiva que chegam ao hospital com lesões extremamente graves, muitas vezes incapacitantes. Além do impacto para o sistema público de saúde, esses acidentes afetam diretamente famílias inteiras, que passam a lidar com perda de renda, reabilitação prolongada e sequelas físicas e emocionais”, afirma.

